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terça-feira, 21 de maio de 2013

Três maneiras de escrever para crianças - final

Estou reproduzindo alguns trechos do ensaio 'Três maneiras de escrever para crianças' de C. S. Lewis
A primeira parte pode ser lida nesse link.


"(...) Só aos trinta anos conheci 'O vento nos salgueiros' e os livros da família Bastable, e acho que nem por isso os apreciei menos. Inclino-me quase a afirmar como regra que uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim. As boas pemanecem. (...)

Essa regra me parece ainda mais verdadeira no que se refere ao tipo particular de história para crianças de que mais gosto, a fantasia ou conto de fadas. Hoje em dia, a crítica moderna usa o adjetivo 'adulto' como marca de aprovação. Ela é hostil ao que denomina 'nostalgia' e tem absoluto desprezo pelo que chama 'Peter Panteísmo'. Por isso, em nossa época, se um homem de cinquenta e três anos admite ainda adorar anões, gigantes, bruxas e animais falantes, é menos provável que ele seja louvado por sua perpétua juventude do que seja ridicularizado e lamentado por seu retardamento mental. Se dedico algum tempo a defender-me dessas acusações, não é tanto porque me importe muito em ser ou não ridicularizado e lamentado, mas porque a defesa tem uma relação íntima com toda a minha concepção do conto de fadas e até mesmo da literatura em geral. Essa defesa consiste em três proposições.
1. Respondo com um tu quoque. Os críticos para quem a palavra adulto é um termo de aplauso, e não um simples adjetivo descritivo, não são nem podem ser adultos. Preocupar-se em ser adulto ou não, admirar o adulto por ser adulto, corar de vergonha diante da insinuação de que se é infantil: esses são sinais característicos da infância e da adolescência. E, na infância e na adolescência, quando moderados, são sintomas saudáveis. É natural que as coisas novas queiram crescer. Porém, quando se mantém na meia-idade ou mesmo na juventude, essa preocupação em "ser adulto" é um sinal inequívico de retardamento mental. Quando tinha dez anos, eu lia contos de fadas escondido e ficava envergonhado quando me pilhavam. Hoje em dia, com cinquenta anos, leio - os abertamente. (...)
2. A visão moderna, a meu ver, envolve uma falsa concepção do crescimento. Somos acusados de retardamento porque não perdemos um gosto que tínhamos na infância. Mas, na verdade, o retardamento consiste não em recusar-se a perder as coisas antigas, mas sim em não aceitar coisas novas. Hoje gosto de vinho branco alemão, coisa de que tenho certeza de que nao gostaria quando criança; mas não deixei de gostar de limonada. Chamo esse processo de crescimento ou desenvolvimento, porque ele me enriqueceu: se antes tinha um único prazer, agora tenho dois. Porém se eu tivesse de perder o gosto por limonada para adquirir o gosto pelo vinho, isso não seria crescimento, mas simples mudança. Hoje em dia, já não gosto somente de contos de fadas, mas também de Tolstói, Jane Austen e Trollope, e chamo isso de crescimento; se tivesse precisado deixar de lado os contos de fadas para apreciar os romancistas, não diria que cresci, mas que mudei.(...) É verdade que o processo de crescimento, por acaso e por infelicidade, acarreta outras perdas. Porém, não é essa a essência do crescimento, e certamente não é o que faz do crescimento algo louvável ou desejável. (...)
3. A associação dos contos de fadas e histórias fantásticas com infância é um fenômeno local e acidental. (...) Em quase todas as épocas e lugares, os contos de fadas não eram feitos especialmente para as crianças nem desfrutados exclusivamente por elas. Só se deslocou para a escola maternal quando caiu de moda nos circulos literários (...). E todos aqueles que a apreciam, sejam jovens ou velhos, provavelmente a apreciam pela mesma razão. E, mais ainda, ninguém é capaz de dizer exatamente que razão seria essa. As duas teorias que mais frequentemente me ocorrem são as de Tolkien e Jung. (...)
Se deixei que o tipo de história infantil dominasse esta discussão, foi porque é o tipo que conheço melhor e de que mais gosto, e não por ter a intenção de condenar algum outro. Porém, os adeptos dos outros tipos gostam de condena-lo. (...) Talvez, então, convenha eu dizer algumas palavras em defesa desse tipo de leitura para crianças.
O conto de fadas é acusado de dar uma falsa impressão do mundo em que vivem. Na minha opinião, porém, nenhum outro tipo de literatura que as crianças poderiam ler lhes daria uma impressão tão verdadeira. As histórias infantis que se pretendem 'realistas' tendem muito mais a enganar as crianças. Quanto a mim, nunca achei que o mundo real pudesse ser igual aos contos de fadas. Acho que eu esperava que a escola fosse igual às histórias de escola. As fantasias não me enganavam, as histórias de escola, sim... (...) O menino não despreza as florestas de verdade por ter lido sobre florestas encantadas: a leitura torna todas as florestas de verdade um pouco encantadas. (...)
Um ataque muito mais severo ao conto de fadas como literatura infantil é desferido pelos que não querem que as crianças sintam medo. Eu mesmo, na infância, sentia tanto medo à noite que não corro risco de subestimar essa objeção. Não gostaria de acender a fogueira desse inferno particular para nenuma criança. (...) Digo "esse tipo de medo" porque precisamos, a esta altura, fazer uma distinção. Os que afirmam que as crianças não devem sentir medo podem estar querendo dizer duas coisas. Podem querer dizer (1) que não devemos fazer nada que possa despertar na criança medos fantasmagóricos, debilitantes e patológicos contra os quais a coragem comum nada vale: As chamadas fobias. Se possível, a mente da criança deve manter-se isenta de coisas em que não suporta pensar. Ou podem querer dizer (2) que devemos tentar manter a criança alheia ao fato de que nasceu num mundo nde há morte, violência, ferimentos físicos, aventura, heroísmo e covardia , onde á o bem e o mal. Se querem dizer a primeira coisa, concordo com eles; Se querem dizer a segunda, não concordo. Essa última é a atitude que dá às crianças uma falsa impressão e alimenta-as de escapismo, no mau sentido da palavra. (...)
Seria ótimo se nenhum menino, deitado em sua cama, ao ouvir ou imaginar que ouviu um ruído, jamais sentisse medo. Mas, se o medo é inevitável, é melhor que a criança pense em gigantes e dragões do que em meros ladrões. (...)
Porém afastei-me do tema, e isso foi inevitável, pois dos três métodos, só conheço por experiência o terceiro. (...)
Antes de terminar, gostaria de voltar ao que disse no começo. Rejeitei toda e qualquer abordagem que parta da pergunta: "Do que as crianças modernas gostam?" oderiam me perguntar: "Você também rejeita a abordagem que parte da pergunta: 'Do que as crianças modernas precisam?' - Em outras palavras a abordagem moral ou didática?" Acho que a resposta é "Sim". Não porque eu não goste de que as histórias tenham uma moral, e menos ainda por pensar que as crianças não gostam da moral da história. É antes porque tenho certeza de que a pergunta "Do que as crianças modernas precisam?" não nos levará a uma boa moral. (...) Seria melhor perguntar: "Qual é a moral que eu preciso?" (...)
Por outro lado se ela (a estória) não lhe mostrar moral nenhuma não queira inventá-la. (...)
Há não muito tempo, para elogiar um conto de fadas bastante sério, um crítico afirmou que o autor "não disse nada em tom de pilhéria".
Mas por que deveria dizê-lo se não estava contando nada engraçado? A meu ver, nada é tão fatal para essa arte quanto a ideia de que o que temos em comum com as crianças é, no sentindo privativo, sempre "infantil", e que o infantil é sempre cômico. Devemos encarar as crianças comos nossos iguais naquela região da nossa natureza em que efetivamente somos iguais. (...)"

C.S. Lewis



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ilustrei os dois posts com obras de autores muito competentes para crianças e que com toda certeza partilham da visão de C.S. Lewis

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Três maneiras de escrever para crianças - parte 1

Olá, resolvi publicar partes do ensaio escrito por C.S. Lewis entitulado 'Três maneiras de escrever para crianças" (On three ways of writing for children).

A tradução que reproduzo foi retirada da Edição d'As Crônicas de Nárnia da editora Martins Fontes, a tradução é de Paulo Mendes Campos.


Três maneiras de escrever para Crianças


A meu ver, quem escreve para crianças pode abordar seu trabalho de três maneiras; duas são boas, e uma, em geral, é má.
A maneira má, fiquei conhecendo há pouco tempo, a partir de dois testemunhos involutários. Um desses testemunhos me foi dado por uma senhora que me enviou o original de um conto que ela havia escrito, no qual uma fada punha à disposição de uma criança um mecanismo maravilhoso. (...) Fui obrigado a dizer a autora, com toda sinceridade, que eu não gostava nem um pouco daquele tipo de coisa. Ela respondeu "Eu também não gosto, acho muito aborrecido. Mas é isso que a criança moderna quer." O outro fato foi o seguinte: no primeiro livro que escrevi, fiz uma longa descrição de um chá completo - que me pareceu delicioso - oferecido por um fauno hospitaleiro à minha heroína, uma garotinha. Um homem, pai de vários filhos, me disse "Ah, já sei como teve essa ideia. Se você quisesse agradar a leitores adultos, escreveria uma cena de sexo. Então, decerto pensou 'Para crianças, não dá. Em vez de sexo, o que mais posso oferecer-lhes? Já sei! os pirralhos adoram se encher de guloseimas." Na realidade, porém, eu é que gosto muito de comer e beber. E escrevi o que gostaria de ter lido quando criança e que ainda gosto de ler agora, com mais de cinquenta anos.
Tanto a senhora do primeiro exemplo, quanto o pai de família do segundo concebem que escrever para crianças é um departamento especial, o de 'dar ao público o que ele quer'. As crianças, evidentemente, constituem um público especial; basta descobrir o que elas querem e lhes oferecer exatamente isso, por menos que nos agrade. Uma outra maneira, a princípio, pode parecer idêntica à primeira, mas penso que a semelhança é superfícial. É a maneira de Lewis Carroll, Kenneth Grahame e Tolkien. O livro publicado nasce de uma história contada de viva voz e talvez espontaneamente a uma determinada criança. A segunda maneira é semelhante à primeira porque o autor, sem dúvida, procura dar à criança o que ela quer. Só que nesse caso ele está lidando com uma pessoa concreta, uma criança específica que, evidentemente, é diferente de todas as outras. Não concebe "as crianças", de modo nenhum, como uma espécie estranha cujos hábitos ele precisa "identificar", como faria um antropólogo ou um caixeiro viajante. (...)

A terceira maneira, a única que sou capaz de usar, consiste em escrever uma história para crianças porque é a melhor forma artística de expressar algo que você quer dizer. (...) Ouvi dizer que Arthur Mee nunca conversou nem quis conversar com uma criança. Na opnião dele, era pura sorte os meninos gostarem de ler o que ele gostava de escrever. Pode ser que essa historieta tenha sido inventada, mas ela ilustra o que quero dizer.
(...) Quando escrevemos longamente sobre crianças vistas pelos olhos de adultos, o sentimentalismo tende a se introduzir, ao passo que a realidade da infância, tal como a vivemos, tende a se exluir. Ora, todos nós nos lembramos de que a nossa infância, tal como a vivemos, era infinitamente diferente de como os adultos a viam. Foi por isso que, quando perguntaram a Sir. Michael Sadler qual era sua opnião sobre uma nova escola experimental, ele respondeu: "Não vou dar nenhuma opinião sobre nenhum desses experimentos enquanto as crianças não crescerem para nos dizer o que realmente aconteceu". 

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No próximo post coloco a conclusão desse texto onde C.S. Lewis trata de um assunto pessoal que é a relação da crítica com a literatura infantil e com aqueles que a consomem.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Estudos sobre Um bonde chamado Desejo - Símbolos


Símbolos 

Símbolos são objetos, personagens, figuras e cores usadas para representar ideias e conceitos abstratos.

meow~

Sombras e gritos

Quando Stanley e Blanche começam a brigar na cena 10 várias sombras de formatos estranhos aparecem na parede atrás dela. Ruídos discordantes e gritos da selva também aparecem quando Blanche começa se perder em direção à loucura. Todos estes efeitos se combinam para dramatizar a repartição final de Blanche e saída da realidade em face da ameaça física de Stanley. Quando ela perde a sanidade em sua luta final contra Stanley, Blanche se retira inteiramente em seu próprio mundo. Como ela modela a realidade da maneira que lhe satisfaz, a esse ponto ela se afasta completamente do real.

A polka Varsouviana.
A Varsouviana era a polka que tocava na noite em que Blanche dançava com seu marido Allen pouco antes de sua morte (...) A Varsouviana toca em vários momentos da peça quando Blanche sente remorso pela morte de Allen. 
Primeiramente na cena 1 quando Stanley conhece Blanche e a pergunta sobre seu marido, depois quando ela conta sua história para Mitch. A partir da daí a Varsouviana começa a tocar com muita freqüência e sempre leva Blanche a se distrair com ela acabando apenas com o som de um tiro.
A polka e o momento a que ela retoma representam a perda da inocência de Blanche. (...)

"It's only a paper moon" 
Na cena 7, Blanche canta essa canção muito popular enquanto toma banho. A letra da canção descreve como o amor transforma o mundo em fantasia. O eu lírico diz que os dois amantes acreditam na falsa realidade e, portanto, ela deixa de ser "faz-de-conta". Essa letra resume o modo como Blanche encara a vida. (...) 
Williams faz uso dessa canção de maneira irônica na cena enquanto revela o passado e as mentiras de Blanche.






fonte




Notas da Clara:  Finalmente terminei de traduzir o que achava mais importante e espero que esses textos ajudem várias pessoas na construção de suas personagens e adaptações do Bonde. Espero também que todos tenham se apaixonado pela incrível personagem que é Blanche Dubois. Estou ansiosa para vivê-la por alguns instantes.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Estudos sobre Um Bonde Chamado Desejo. Motivos


Motivos

Motivos são estruturas recorrentes, contrastantes ou artifícios literários que ajudam a desenvolver e informar os temas principais.

Luz
Durante a peça Blanche evita aparecer diretamente sob a luz, especialmente na frente de seu pretendente Mitch. Ela também se recusa a revelar sua idade verdadeira e fica bem claro que ela evita a luz direta para não deixá-lo ver sua beleza decadente. De modo geral a luz simboliza a realidade do passado de Blanche. Ela é atormentada pelos fantasmas daqueles que perdeu - seu primeiro amor, o propósito na sua vida, sua dignidade, e a aristocracia de seus ancestrais. 
Blanche cobre as lâmpadas do apartamento dos Kowalski com uma lanterna de papel chinesa e se recusa a sair com Mitch durante o dia ou em locais muito bem iluminados. Mitch aponta esse costume de Blanche na cena 9 quando a confronta com as estórias que ouviu de Stanley sobre seu passado; nesse momento Mitch força Blanche a ficar embaixo da luz e a diz que não se importa com sua idade apenas com suas mentiras. Blanche responde que não quer fazer mal a ninguém mas que acredita que a magia seja mais importante na vida do que a realidade. A incapacidade de Blanche de ficar perto da luz indica que sua capacidade de domínio da realidade está próxima do fim.
Na cena 6 Blanche diz a Mitch que estar apaixonada por seu marido, Allan Grey era como ter o mundo revelado em cores berrantes e desde o suicídio de Allan Blanche diz que as cores tem estado desaparecidas. Durante todos os relacionamentos inconsequentes de Blanche cm outros homens ela experienciou apenas luzes turvas e escurecidas, a luz vívida portanto representa a juventude e inocência sexual de Blanche enquanto a luz obscura é sua maturidade sexual e sua desilusão.


Banho
As experiências de Blanche a transformaram em uma mulher histérica, mas os banhos que toma durante a peça, ela diz, acalmam seus nervos. Esses banhos representam seus esforços de se limpar de seu histórico condenável mas, como é impossível apagar o passado seus banhos nunca estão terminados. 

Stanley também recorre a água para tentar apagar seu erro de bater em Stella, o banho serve para suavizar sua ira e, assim que ele deixa o banheiro ele chama por sua esposa com remorso.

Embriaguez
Ambos, Stanley e Blanche bebem muito durante a peça.
A bebedeira de Stanley é social, ele bebe durante os jogos de poker, com os amigos no bar e para celebrar o nascimento de seu bebê. A bebedeira de Blanche, por outro lado é anti-social, e ela tenta a todo modo mantê-la em segredo. Ela bebe para esquecer a dura realidade. O estado de embriaguez a permite mergulhar em sua própria imaginação e, entre outros, criar uma fuga com Shep Huntleigh. Para ambas as personagens beber leva a um comportamento destrutivo.
Stanley fica violento e Blanche ilude a si mesma. Ainda assim, Stanley é capaz de sair de seu estado de embriaguez enquanto o álcool leva Blanche gradualmente a insanidade.



terça-feira, 30 de abril de 2013

Estudos e textos sobre Um bonde chamado Desejo - Temas

Esse texto deve ter erros de ortografia. Traduzi apressadamente. Sinta-se confortável para me indicar os erros de concordância também hehe


Temas

Temas são ideias universais e fundamentais exploradas num trabalho literário.



A incapacidade da fantasia de superar a realidade.
Ainda que a protagonista de Um bonde chamado desejo seja a romântica Blanche Dubois, a peça trata de realismo social. Blanche explica para Mitch que mente porque se recusa a aceitar o que o destino preparou para ela, e mentir para si mesma e para os outros permite que a vida aparente ser como ela deveria ser, e não como ela é.
Stanley, um homem prático e firmemente preso ao mundo físico desdenha do universo de Blanche e faz tudo que pode para acabar com ele. O relacionamento problemático entre Blanche e Stanley é uma representação da constante guerra entre aparência e realidade o que impulsiona a história da peça e cria uma tensão permanente. Todas as tentativas de Blanche de recriar a sua existência e de Stella falham (de rejuvenescer e de salvar Stella de uma vida com Stanley). 
Um dos modos mais usados por Williams para ilustrar a dificuldade da fantasia em sobrepujar a realidade é explorando os limites entre interior e exterior.
A cenário da peça é o apartamento de dois quartos dos Kowalski e as ruas que o cerca, William faz questão de que ambos sejam retratados no palco colocando em evidência que o apartamento não é um santuário doméstico, ou seja, o apartamento não é um universo paralelo impermeável ao mundo exterior , os personagens entram e saem do apartamento constantemente e trazem consigo problemas que encontraram nas ruas. (...)
Ainda que a realidade triunfe sobre a fantasia em Um bonde chamado desejo Williams sugere que a fantasia também é uma ferramenta importante. No fim da peça Blanche volta a seu mundo particular de fantasia criando um escudo para se proteger dos golpes duros que tem levado da realidade. A insanidade de Blanche aumenta quando ela entra completamente em seu mundo privado e deixa o mundo objetivo para trás e se negando a aceitar a realidade.
No entanto, para ser completamente salva Blanche precisa transformar o mundo exterior naquilo que imagina e como a realidade não é parte de seu mundo de fantasia ela contenta-se em adaptar o que tem para que sirva a seus propósitos. Em ambos os reinos, psicológico e físico o limite entre fantasia e realidade é permeável. A felicidade iludida de Blanche ao fim da peça sugere que até certo ponto a fantasia é sim uma força vital importante para o indivíduo, ainda que a realidade sempre ganhe.

O relacionamento entre Sexo e Morte.
O medo de morrer de Blanche se manifesta em seu medo de envelhecer e perder sua beleza. Ela se recusa a dizer sua verdadeira idade aos outros e de aparecer perto de luzes fortes para não revelar sua aparência em decadência, ela parece acreditar de que se continuar afirmando sua sexualidade, principalmente com garotos mais novos ela será capaz de se esquivar da morte e retornar ao mundo maravilhoso da adolescência que viveu antes do suicídio de seu marido.
No entanto, ainda na cena 1 Williams sugere que o histórico sexual de Blanche é na verdade a causa de sua queda. Assim que chega a casa dos Kowalskis Blanche diz que viajou por um bonde chamado desejo e fez baldeação para o bonde cemitério que a levou até a rua Campos Elisios. Essa jornada, que acontece antes do início da peça é uma representação alegórica da trajetória de vida de Blanche, uma vez que os campos Elisios são a terra dos mortos na mitologia Grega. A entrega de Blanche a suas tentações causaram a perda de Belle Reve, sua expulsão de Laurel e, até o fim da peça, sua expulsão da sociedade. 
Blanche está familiarizada com o conceito de que sexo leva a morte, durante a peça ela é atormentada pela morte de seus ancestrais ao que ela culpa seus acessos de 'fornicações épicas'. O suicídio de seu marido foi resultado de sua desaprovação a sua homossexualidade. (...)
Na cena 9 uma mulher mexicana aparece vendendo "flores para os mortos" e Blanche se apavora por acreditar que ela anuncia seu destino. Seu caminhar para a insanidade é o final perfeito para duas de suas falhas - sua incapacidade de agir apropriadamente em relação ao seu desejo, e seu medo desesperado da mortalidade humana. 
Sexo e morte estão muito ligados na experiência de Blanche.

Dependência dos Homens
Um bonde chamado desejo é uma crítica sobre o modo como as instituições da sociedade Americana pós-guerra agia em relação a suas mulheres. Williams usa da dependência de homens de Blanche e Stella para expor e criticar o tratamento que as mulheres recebiam durante a transição do velho para o novo Sul. Ambas, Blanche e Stella pensam que a companhia masculina é o único modo de alcançar a felicidade e dependem deles para seu sustento e para a conservação de sua auto-estima.
 Blanche reconhece que Stella poderia ser mais feliz sem seu marido abusivo, mas a saída alternativa proposta por ela é contatar Shep Huntleigh e pedir ajuda, ou seja, ainda envolve dependência masculina. 

Quando Stella escolhe continuar com Stanley ela escolhe depender do amor e acreditar no seu homem ao invés de em sua irmã e Williams não critica a escolha de Stella - ele deixa claro que Stanley representa um futuro muito mais seguro para ela do que Blanche.
Enquanto Blanche vê seu casamento com Mitch como um meio de escapar do desamparo. A exploração masculina perante a sexualidade de Blanche a deixaram com a reputação destruída e tal reputação faz com que ela não seja vista como uma mulher boa para se casar, e por causa desse mesmo desamparo Blanche vê o casamento como sua única possibilidade de sobrevivência; Quando Mitch se recusa a casar com ela em função das fofocas que ouviu de Stanley, Blanche pensa imediatamente em outro homem para vir a seu resgate. 
Como Blanche não consegue ver nada além de seu mundo de dependência masculina ela não consegue imaginar maneiras de salvar a si mesma, e essa dependência é a causa de sua queda, por depender dos outros Blanche coloca seu destino nas mãos de outrem.


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